Cuidados e regras na tradução de textos de músicas

Tradução de textos de músicas

Ao contrário de traduções livros e textos em geral o tradutor na área da música tem que considerar e conciliar vários fatores:

  1. A tradução direta do texto, mantendo o sentido, a expressividade, as emoções e a poeticidade.
  2. O número das sílabas.
  3. A rima
  4. As figuras e expressões exprimidos pela música, que  correspondem com o texto original, devem voltar da mesma maneira na tradução, geralmente ligadas ás mesmas notas. Isso significa que essas palavras não podem mudar o seu lugar na frase.
  5. Se o texto e muito conhecido, como certos trechos da Bíblia na tradução de Lutero na Alemanha, da maneira de que o ouvinte se familiariza com o texto, seria bom, se o texto da tradução poderia ser tirado de uma Bíblia vulgar na língua da tradução, como no português a Almeida.  


Os compositores geralmente não têm nada contra tentativas de traduzir as obras deles. O ideal seria, todavia, que o  compositor participasse da tradução da sua obra. Nesse caso ele teria toda as liberdade. Ele poderia mudar a música, sempre quando necessário. Se a tradução é feita depois da morte do compositor, deve ser executada por pessoas, que, além de dominar as duas línguas e terem um dom poético, conhecem profundamente estilo e a escala das expressões da música do compositor.
Exemplos para isso existem poucos. De Frank Martin, compositor da Suíça, um país com quatro línguas, predominando o alemão e o francês, existem obras em duas línguas, entre elas o grande oratório Golgotha.
Desses exemplos podemos aprender muito.

Seguem-se exemplos para os 5 fatores de cima:

  1. Mozart, Titus, Nº 2, Ária da Vitellia: Deh, se piacer  mi vuoi, lascia i sospetti tuoi. (Ah, se vc quer me agradar, deixe as suas suspeitas.) A tradução no alemão é: Schlägt mir dein Herz voll Liebe, lass Furcht und Argwohn schwinden. (Se bate seu coração cheio de amor, deixe que desapareçam angústia e suspeita.)  Mozart, porém, teria escrito uma outra música, se tivesse visto palavras como “Bater coração”, “Amor”ou “angústia”.
Outro exemplo: Handel: Messias,  Coro 25 (23) (Fuga):And with his stripes we are healed (Com suas listras somos sarados; as listras são as marcas sangruentas abertas pelo chicote). Uma tradução portuguesa traz: “E pelas suas pisaduras ...”  As primeiras quatro notas formam uma figura musical que significa a cruz, lembrando que as listras são as marcas recebidas antes e durante a crucificação. A palavra “stripes” (listras) com suas associações sorumbáticas cai na nota mais grave, enquanto com “healed” (sarados) a melodia se levanta. Na tradução, porém, a nota mais baixa, que é também o pé da cruz, cai com “sua”, que se refere a Cristo, dizendo assim que Ele é nojento e a derrota na cruz é culpa dEle, o que contradiz claramente as intenções do compositor. A melodia ascendente vai com pisaduras, como elas fossem uma coisa agradável. Melhor seria por isso a tradução: "Por suas chagas somos salvos."

  1. O número das sílabas é o fator, que pode ser variado mais facilmente. Em lugar de uma semínima se colocam duas colcheias etc. Tem que ser feita, no entanto, no estilo do compositor e não a toa.
  2. A rima: No original achamos uma rima, às vezes feita por poetas famosas e muito bons. Esse nível é inalcançável na tradução. A gente precisaria pelo menos de um poeta famoso do português, que entende a língua do original e a música. Mesmo assim não daria certo, já que o poeta do original teve toda a liberdade, enquanto o tradutor tem que traduzir o que é dado, e às vezes as rimas disponíveis não tem nada a ver com o conteúdo do texto. Muitas vezes se constroem as rimas a força. Muito comum é a técnica de colocar só em cada segundo verso da tradução uma rima, para facilitar. Na música clássica com suas melismas e fugas se perde a noção pela rima com facilidade. Por isso eu estaria disposto de abrir mão da rima em certos casos
  3. As figuras e expressões musicais: (Veja também ponto 1.) Na cantata 172 de Bach encontramos no recitativo do baixo (segundo movimento) uma palavra bem conhecida de Cristo: "Quem me ama, guardará a palavra..."  (João 14,23). As palavras “me” (mich) e “nós” (wir) se referem a Cristo e recebem uma nota muito alta, enquanto pronomes e a morada, referente aos seres humanos, recebem notas baixas, porque Cristo se humilhou virando se para nós. Isso exige do tradutor, que construa as frases assim, que também na tradução as respectivas palavras caiam no mesmo lugar. Se isso fosse impossível, Bach mudaria simplesmente a melodia, mas nós não podemos consultar o compositor a respeito e devemos lançar mão de tais meios só com muito cuidado e em profundo respeito à música exímia do original.
  4. Citações de textos conhecidos: Já que esse texto (João 14,23) é da Bíblia e bem conhecido, o tradutor deveria usar as palavras de uma tradução corriqueira e não substituir “palavra” por “mensagem” ou “guardará” por “manterá” etc. Isso, porém, contraria quase sempre as necessidades dos pontos um até quatro. Fazer aqui os compromissos certos é uma tarefa delicada. Soluções más causam, que parte da mensagem, que o compositor nos traz, se perde. Concluir, todavia, que o ideal seria cantar a música no original, não é a solução, porque desta maneira se perde ainda mais: Muitos não entendem nada, outros entendem o básico, mas as coisas sutis, que às vezes se perdem na tradução, eles também não sentem e entendem no original.

Se o original é uma texto sem importância como quase todas as música populares, ou muitas músicas infantis, então a gente tem muita liberdade. Uma música russa sobre uma menina Katiucha faz sucesso na Alemana como balada sobre um ladrão. Mas se a mensagem é importante, poética, santa ou cheio de mistérios ou sentidos escondidos e conotações, a tradução deve ser feita com o maior cuidado e apuro.

Bach: Cantata 172 "Cantai-lhe", Movimento, com versões de tradução: