Confessionalidade na música – Ouvir e entender música

Certa estação subterrânea de metrô na Alemanha virou com o tempo um encontro de marginais como usuários de drogas, mendigos e ladrões na espera de vítimas que saem do metrô com suas bolsas. A empresa chamou a polícia por várias vezes, mas já que eles não conseguiam flagrar os marginais, não conseguiam nada. Jovens com roupas e hábitos agressivos colocaram as botas sujas nos bancos, jogando lixo no chão, ameaçando transeuntes e mais. Certo dia a empresa montou uma sonorização no teto e começou a tocar música: Música religiosa instrumental, preferidamente dos clássicos como Bach, Handel e Vivaldi. Os marginais não agüentaram e fugiram do local. Hoje em dia muitas estações de metrô, praças e outros locais têm uma sonorização com música clássica religiosa ou ética. Como uma música instrumental pode ter tanto impacto?
Rapariga (?)
Como Paulo Brum já escreveu em recentes artigos sobre música no Mensageiro Luterano, ela é uma língua. A língua portuguesa tem o famoso exemplo da palavra “rapariga”. Ouvindo essas quatro sílabas a maioria dos brasileiros pensa em uma coisa indecente, embora que um português pensa em uma moça comum, sem malícia alguma. Um estrangeiro, que não entende português, não vai associar nada ou, quem sabe, imaginar algum significado, que ele adivinha.
Na música podem acontecer as mesmas coisas. Uma música de Bach como o início do livro de piano “O cravo bem temperado, volume II”, que conta com os meios da música instrumental da criação do mundo, poderia ser desentendido por alguém que não é familiarizado com música desse tipo. Quem sabe, ele associa toda música clássica com um tio bem chato e retrogrado dele, que por acaso gosta de música clássica, e enxerga nessa música por isso só enfado e tristeza.
Mas como um estrangeiro pode aprender português, inclusive os detalhes sobre uso local de palavras como “rapariga”, um ouvinte pode aprender a linguagem musical dos grandes músicos. Todas as pessoas na América e no oeste da Europa entendem basicamente as expressões da música clássica, porque eles crescem ouvindo músicas clássicas em filmes, propaganda e mais. Por isso também os marginais entendem a música e se sentem mal com música cristã ou eticamente boa.
Também uma música para um filme tem que ser adaptada à cena. Se ela é triste, o compositor deve compor uma música triste, e ele não vai dizer que isso não é possível porque podem existir pessoas que desentendem a música e associam-na com alegria. Se o compositor colocasse uma música superficial e simplesmente alegre como “Fico Feliz” de Aline Barros em uma cena de tensão, tristeza ou heroísmo, todos sentiriam que daria em um efeito ridículo.
Concluímos disso que uma música, mesmo sem palavras, pode ser uma língua definida. As músicas de Bach ou Brahms são músicas evangélicas luteranas que exprimem a nossa doutrina e atitude de orar, enquanto as sinfonias de Bruckner são explicitamente católicas e exprimem um outro tipo de religiosidade. De longe as diferenças parecem pequenas, como um muçulmano talvez não entenda as diferenças entre evangélico e católico, mas quem ouve com atenção começa a entender os grandes compositores e aprende a fé e doutrina luterana através da música, como também pode aprender sobre a religiosidade dos católicos através de Bruckner, Dvorak e outros.
Disso podemos aprender para as composições de hoje e para as traduções de hinos do exterior. Se quisermos manter a síntese entre música e texto, não podemos mudar o texto como quisermos. Paulo Brum já citou o Hinário nº 93 como exemplo, onde a melodia contraria o texto. Mas também nos arranjos dos louvores e hinos podemos desenvolver mais criatividade para exprimir melhor o texto, que muda de estrofe a estrofe, mudando o som de órgão, teclado e outros instrumentos, adicionar, se tiver, trombetas ou flautas em determinadas estrofes, e mudando até os acordes e a maneira do acompanhamento para revelar mais a mensagem do texto. Sons pesados e puxados de guitarras com distorção, por exemplo, combinam com trechos sérios como na música “Misericórdia”, mas não com uma alegria como em “Fico feliz”.
Aprendamos dos grandes compositores do passado, aprendamos também de bons músicos de hoje, para a nossa música seja sempre renovada e viva, e ensinemos aos nossos irmãos ouvir e entender bem as mensagens maravilhosas transmitidas nelas.